Guerra no subcontinente: a história dos conflitos entre Índia e Paquistão (Parte IV – Final)

Reis Por Luiz Reis*

Leia também a Parte I, a Parte II e a Parte III

Após a Guerra Indo-Paquistanesa de 1971, ambos os países buscaram reorganizar e fortalecer suas forças armadas de modo a sempre estarem preparados para um novo conflito. Apesar da guerra de 1971 não ter envolvido diretamente a questão da Caxemira, tal assunto ainda gerava diversas discussões entre os dois países, sem haver pelo menos um acordo para se resolver tal questão, que já se arrastava desde a formação dos dois países, em 1947.

Nem os encontros no pós-guerra para resolver sobre libertação de prisioneiros e delimitação das novas fronteiras entre os três países (Índia, Paquistão e Bangladesh) a situação na região da Caxemira continuava tensa e altamente perigosa, como um barril de pólvora prestes a explodir.

Nos anos 1970, além de ambos os países iniciarem uma nova corrida armamentista, adquirindo equipamento militar mais moderno, treinando e reorganizando mais uma vez suas unidades militares, outros terríveis fatores iriam tornar a região cada vez mais tensa, criando uma tensão que iria ser sentida por todo o planeta.

A QUESTÃO NUCLEAR ÍNDIA-PAQUISTÃO

O governo paquistanês, a partir de 1972, inicia pesquisas para se obter armas nucleares, como forma de dissuasão e evitar mais uma derrota para a Índia. Além disso, o país tomou conhecimento que os indianos estavam em estágio bem avançado para o desenvolvimento de uma bomba atômica (os estudos indianos começaram ainda durante a ocupação inglesa na Índia, em 1944, sendo considerado um projeto ultrassecreto até então).

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Cratera formada pelo primeiro teste nuclear da Índia (BBC)

Na segunda metade da década de 1960, alegando que queria utilizar-se da energia nuclear para fins pacíficos, os governos dos Estados Unidos e Canadá promoveram ajuda para o desenvolvimento de um reator nuclear para a geração de energia na região, mas os indianos aproveitaram-se da experiência colhida para também desenvolver uma bomba nuclear.

Como consequência dessa transferência de tecnologia e o aprendizado de muitos cientistas nucleares indianos na Inglaterra e nos Estados Unidos, no dia 18 de maio de 1974 a Índia detonou o seu primeiro artefato nuclear (com o irônico nome código “Buda Sorridente”) no Deserto de Thar, área remota próxima à fronteira com o Paquistão. Logo após essa explosão, os Estados Unidos e o Canadá abandonaram o programa de cooperação.

O Paquistão protestou violentamente, inclusive com o então Primeiro-Ministro Zulfikhar Ali Bhutto (pai da também ex-Primeira-Ministra Benazir Bhutto) ironizando a declaração da Primeira-Ministra Indira Gandhi de que o teste foi “pacífico”, e dizendo que não iria “sucumbir às aspirações indianas de dominação do Subcontinente”.

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Imagem do teste nuclear paquistanês (Atomicheritage.org)

Com o teste indiano, os trabalhos paquistaneses em desenvolver a sua própria arma nuclear se intensificaram. Devido a vários fatores, o projeto paquistanês demorou cerca de 26 anos para conseguir detonar a sua primeira bomba nuclear (com o nome código “Chagai-I”) no dia 28 de maio de 1998.

Hoje ambos os países, que não assinaram o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (NPT, em inglês) criado em 1968, possuem substancial arsenal atômico. A Índia possui entre 120 a 160 ogivas nucleares e o Paquistão possui entre 140 a 160 ogivas. Também ambos os países possuem grandes quantidades de estoques de armas químicas e biológicas, fato que juntamente com as armas nucleares, preocupam o mundo quando ambos os países entram em conflito.

A GUERRA DE KARGIL DE 1999

Na Caxemira a situação continuou tensa durante as décadas de 1970 e 1980, principalmente com a Índia e o Paquistão tornando-se países que possuíam armas nucleares. Durante esse período, numerosos tiroteios e até salvas de artilharia eram costumeiramente trocadas ao longo da fronteira disputada entre os dois países, mas nada que pudesse abalar a frágil paz da região.

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Soldados do exército indiano no conflito de Kargil (Rightlog.in)

No final anos 90 enfim, a tensa situação entre os dois inimigos se volta para um pequeno distrito situado no reivindicado lado indiano da Caxemira, no qual no dia 3 de maio de 1999 tropas paquistanesas, depois de atravessarem a Linha de Controle (LoC, em inglês) atacaram com pesada barragem de artilharia os postos de fronteira indianos situados nessa região, chamada de Kargil. Inicia-se assim mais um conflito (não declarado) entre indianos e paquistaneses, a Guerra de Kargil.

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Tropas paquistanesas preparam canhão de 133mm na Caxemira (AFP/Luke Hunt)

Os postos de fronteira e a própria cidade de Kargil são tomadas pelos paquistaneses, e o governo indiano organiza uma grande operação para retomar a cidade, a “Operação Vijay” (Vitória) para “limpar” a região dos paquistaneses, onde mobiliza cerca de 20 mil homens, cerca de duas divisões, e elementos da Força Aérea Indiana, (IAF, em inglês) para tentar obter a superioridade aérea da região (a “Operação Safed Segar”). A Marinha Indiana (IN, em inglês) iria promover o bloqueio dos principais portos paquistaneses, para evitar a chegada de suprimentos (a “Operação Talwar”).

Durante as operações aéreas na região, destacou-se a utilização do caça multimissão Dassault Mirage 2000H/TH “Vajra” (Trovão), recebidos em 1985, que lançou desde bombas não-guiadas (as “bombas burras”, algumas do tempo da II Guerra Mundial) até as modernas bombas designadas a laser (LGB, em inglês), como a Paveway II por exemplo, a grandes altitudes (voando a cerca de 10 mil metros de altitude), com absoluta precisão e sucesso, destruindo várias concentrações de tropas paquistanesas na região, bunkers de comando e outros, sem nenhuma perda.

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Mirage 2000 “Vajra” (Times of India/India Air Force)

Devido as altas altitudes do conflito, os cansados MiG-21 e MiG-23 indianos não conseguiam subir a essas alturas e alguns foram perdidos ao se chocarem contra as altas montanhas da região. Mesmo assim foram largamente usados e infringiram pesadas perdas aos paquistaneses. Os paquistaneses usaram a sua Força Aérea Paquistanesa (PAF, em inglês) para tentar proteger as suas tropas contra os ataques indianos (com os então modernos caças Lockheed Martin F-16A/B), mas falharam em tentar manter a supremacia aérea e não houve engajamentos aéreos na região, sendo a maioria das perdas por ação dos mísseis antiaéreos portáteis (MANPADS, em inglês) ou acidentes.

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F-16 da PAF (Ajai Shukla/Broadsword)

No lado terrestre da guerra, o conflito continuava bastante acirrado, com as forças indianas tentando retomar o território conquistado pelos paquistaneses. Uma das batalhas mais decisivas da guerra foi a Batalha da Colina Tigre (Tiger Hill) entre os dias 3 e 4 de junho, onde após onze horas de combate, os indianos retomaram a colina e inflingiram pesadas perdas aos paquistaneses, que começavam a recuar.

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Mapa mostrando local da Batalha da Colina Tigre (My Bharath My Soul/tribuneindia.com)

Após a derrota na Batalha da Colina Tigre, no dia 15 de junho, os paquistaneses começaram a negociar com o então presidente dos Estados Unidos Bill Clinton um cessar-fogo e a retirada das tropas. Os indianos, contatados por Clinton, aceitaram os termos paquistaneses e no dia 11 de julho, após outras derrotas (Point 5060 e Point 5100 – 29 de julho; Batalha das Colinas Jubar – 07 de julho) e quase o rompimento da frente de batalha, os paquistaneses iniciam a gradual retirada para sua fronteira, retirada concluída no dia 26 de julho, quando não havia mais tropas paquistanesas no lado indiano. A Operação Vijay foi um extraordinário sucesso indiano.

A Guerra de Kargil teve cerca de 600 mortos e mais de 1.600 feridos do lado indiano e cerca de 700 mortos e 4 mil feridos (segundo fontes oficiais, mas os dados divergem). Mesmo vencendo o conflito, a Índia percebeu que precisava modernizar alguns setores de suas forças armadas, principalmente a Força Aérea Indiana, que então adquiriu modernos caças Sukhoi Su-30MKI e Dassault Rafale, além de partir para o desenvolvimento de um caça próprio, o HAL Tejas, já nos primeiros anos do século XXI.

O Paquistão também iniciou uma modernização de suas forças, priorizando também a sua força aérea, partindo então para a atualização dos seus F-16 e Dassault Mirage III e 5 (esses últimos sob o Projeto ROSE – Retrofit of Strike Element, ou Upgrade da Capacidade de Ataque, em tradução livre) e também da produção de um caça próprio, o PAC JF-17 Thunder, com tecnologia oriunda da China, que irá se tornar um dos seus maiores parceiros militares.

APÓS KARGIL, O SÉCULO XXI E OS EVENTOS DE 2019

O século XXI viu o conflito Índia-Paquistão sendo mantido e praticamente sem haver uma solução definitiva para o conflito. Ambos os países continuam com pesados investimentos na área militar, com a Índia (uma nação hoje com mais de um bilhão de habitantes, assim como a China), sempre à frente do processo.

Na década passada os indianos iniciaram uma forte aproximação com os Estados Unidos (talvez por causa do crescimento do poder e da influência da China na região), que resultou no fornecimento pela primeira vez de equipamento norte-americano para o país, na forma de aeronaves de patrulha marítima Boeing P-8I Neptune (uma versão do P-8A Poseidon), a aeronave de transporte pesado Boeing C-17 Globemaster III e a aeronave de transporte tático Lockheed Martin C-130J Super Hercules.

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Embraer EMB-145I “Netra” da IAF (Air&Cosmos International)

Também adquiriu os já citados Su-30MKI e Rafale, além de desenvolverem aeronaves próprias (o caça Tejas e o helicóptero HAL Drhuv) além da aeronave de Alerta Aéreo Antecipado e Controle (AEW&C, em inglês) Embraer EMB-145I “Netra”, demostrando que a Índia adquire equipamentos de vários fornecedores pelo mundo. O exército e a marinha também seguem a mesma tendência, pois por exemplo a Marinha Indiana modificou profundamente o antigo “Cruzador Porta-Aviões” da Classe Kiev, o Baku, transformando-o em seu primeiro porta-aviões pesado, o INS Vikramaditya, também adquirindo submarinos nucleares russos da classe Akula, entre outros equipamentos.

Já o Paquistão segue modernizando seus caças, como já citado, continuando com o desenvolvimento do mencionado JF-17 e também modernizando outros setores de suas forças armadas, além de desenvolver uma série de mísseis de capacidade nuclear que podem alcançar toda a Índia.

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JF-17 da PAF (Wikipedia/Shimin Gu)

Em fevereiro de 2019, indianos e paquistaneses se envolveram em mais um conflito armado, dessa vez breve, onde, em retaliação a um ataque terrorista em seu território, forças indianas atacaram e destruíram um suposto acampamento onde se situavam terroristas auxiliados pelo Paquistão. Combates aéreos se seguiram entre os caças indianos (os modernizados Mikoyan Mig-21 Bison e o Dassault Mirage 2000 I/TI e os Sukhoi Su-30MKI) contra os caças paquistaneses (o JF-17 e supostamente o F-16).

Nos engajamentos que se seguiram, apenas um abate foi confirmado, o de um MiG-21 indiano. O Paquistão reivindica dois caças abatidos e os indianos reivindicam ter abatido um F-16 e um drone paquistanês. Tais ações aéreas resultaram em cerca de 12 paquistaneses e 4 civis indianos mortos. O presente conflito segue sem uma definição até o momento e tudo indica que a situação está tranquila na região.

A situação na Caxemira pelo visto irá tardar muitos anos para ser resolvida, sendo que o mais importante é evitar que os dois países usem seu arsenal nuclear, que pode causar sérios danos ao nosso planeta e a pessoas inocentes espalhadas pelo mundo. Que um dia Índia e Paquistão resolvam seus problemas e finalmente encontrem a paz desejada por todos.


*Luiz Reis é Professor, Historiador Militar e entusiasta de aviação civil e militar.


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Assista aos vídeos sobre os conflitos indo-paquistaneses do início de 2019 do nosso parceiro, o Canal Arte da Guerra, do Comandante Robinson Farinazzo:


ÍNDIA ATACA POSIÇÕES NO PAQUISTÃO: ANÁLISE DOS ANTECEDENTES -VÍDEO 496


CONFLITO ÍNDIA/PAQUISTÃO: PAINEL DAS OPERAÇÕES MILITARES -VÍDEO 497


LIVE: CONFLITO ÍNDIA/PAQUISTÃO E ASSUNTOS MILITARES DA SEMANA-VÍDEO 499


COMBATES AÉREOS NA CACHEMIRA: ANÁLISE DE UM ARTICULISTA AERONÁUTICO-VÍDEO 500


 

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  2 comments for “Guerra no subcontinente: a história dos conflitos entre Índia e Paquistão (Parte IV – Final)

  1. naldodorneles01
    04/05/2019 às 17:23

    Muito bom artigo. Parabéns pelo trabalho e divulgação do conteúdo !!

    Curtido por 2 pessoas

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