Guerra no subcontinente: a história dos conflitos entre Índia e Paquistão (Parte III)


Por Luiz Reis

Leia também a Parte I e a Parte II


Quando houve a divisão do antigo Subcontinente Indiano entre Índia e Paquistão, devido a questões geográficas, étnicas e culturais, o Paquistão ficou dividido em duas partes, o Paquistão Ocidental (a parte que corresponde hoje ao atual Paquistão), com capital em Islamabad, e o Paquistão Oriental (anteriormente chamada região do Bengali), com capital em Dacca, logo considerada pela população local uma região completamente abandonada pelo governo central paquistanês. Ambas as regiões eram divididas pela Índia.

Após a vitória indiana na guerra de 1965, os ânimos se acirraram, com ambos os países buscando uma modernização e reorganização de suas forças armadas, já prevendo um futuro conflito armado. O Paquistão adquiriu grandes quantidades de caças Dassault Mirage III e Mirage 5 (os quais ainda operam, modernizados, até os dias de hoje) para fazer frente às centenas de modernos MiG-21 que a Índia operava na época. Os exércitos e marinhas também incorporaram diferentes equipamentos visando um conflito em larga escala e decisivo entre os dois países.

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Divisão do Paquistão (Velho General, mapa sem escala)

A QUESTÃO DO PAQUISTÃO ORIENTAL

O Paquistão Oriental era uma região que não possuía nenhuma ligação terrestre com a região ocidental, mais desenvolvida. Ela se situava a mais de 1.600 km do lado ocidental, e não era servida com a mesma infraestrutura e serviços existentes no Paquistão Ocidental, com seus moradores se sentindo abandonados. Além disso, mesmo tendo costumes e traços culturais semelhantes ao lado ocidental, como a religião mulçumana por exemplo, os paquistaneses ocidentais desprezavam os orientais, gerando tensões raciais entre os dois lados.

Com esse quadro, os líderes bengalis iniciaram, no final dos anos 1960, uma aproximação com a Índia, visando apoio num futuro movimento de independência. Os rebeldes bengalis, conhecidos como “Mukti Bahini” (em bengali, “Exército da Libertação”) iniciaram a preparação para um conflito com as forças paquistanesas presentes no Paquistão Oriental. O estopim do conflito foi a decisão do lado ocidental, em 1970, de retirar a autonomia e a unidade do lado oriental como uma grande província, transformando a região em um conjunto de quatro províncias, gerando violentos protestos no lado oriental.

A GUERRA DA INDEPENDÊNCIA DE BANGLADESH

No ano seguinte, a situação se agrava, com diversos protestos culminando em violentas reações das forças de segurança paquistanesas, que lançam duas operações para matar os membros da elite intelectual bengali (as operações “Searchlight” e “Barisal”), forçando o exílio de muitas dessas pessoas na Índia. No dia 26 de março de 1971 é declarada unilateralmente a independência do Paquistão Oriental, com o novo país sendo chamado de Bangladesh. Foi formado um governo no exílio bengali na Índia e muitos militares das três forças armadas paquistanesas de origem oriental desertaram e fugiram para a Índia a fim de se juntar às novas Forças Armadas de Bangladesh.

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Operação Searchlight (Wikipedia, mapa sem escala)

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Indira Gandhi (AFP)

A Índia foi o primeiro país a reconhecer a independência do novo país, e sua então Primeira-Ministra, Indira Gandhi, ofereceu total assistência e apoio para a estruturação da nova nação (inclusive proferindo a célebre frase: “Vamos para o Paquistão Oriental!”). As forças indianas começaram a treinar os desertores bengalis como guerrilheiros para servirem no Mukti Bahini e se infiltrarem no novo país, já que as forças paquistanesas leais ao lado ocidental ainda resistiam à declaração de independência e iniciaram violentos ataques para tentar destruir as forças rebeldes. A reação da guerrilha bengali consistia em eliminar os apoiadores do Paquistão Ocidental através de violentos atentados terroristas contra cidades onde concentravam-se os apoiadores paquistaneses contra a independência.

Durante os meses seguintes, a luta tornou-se bastante violenta, com os indianos e bengalis inclusive apelando para a ONU mediar uma solução pacífica para a situação. Como a situação entrou um impasse, com o Paquistão rejeitando qualquer tipo de acordo, forças paquistanesas e indianas prepararam-se para um inevitável conflito armado.

A GUERRA INDO-PAQUISTANESA DE 1971

No amanhecer do dia 03 de dezembro, a Força Aérea Paquistanesa (PAF, em inglês) lançou um ataque de surpresa contra onze bases aéreas e instalações de radares no noroeste da Índia, incluindo Agra, cerca de 480 km da fronteira com o Paquistão. Esses ataques fizeram parte da “Operação Gengis Khan”, ataque amplamente inspirado na “Operação Focus” (o ataque israelense às forças árabes que precedeu a Guerra dos Seis Dias, em 1967).

Os paquistaneses usaram os bombardeiros Martin B-57 Canberra e caças-bombardeiros North American F-86F Sabre, escoltados por caças Mirage III, que também faziam o reconhecimento fotográfico dos alvos após os ataques, usando sua grande velocidade de Mach 2 para fugir dos interceptadores indianos. A operação teve um sucesso limitado, pois não conseguiu neutralizar a Força Aérea Indiana (IAF, em inglês) como era desejado pelos paquistaneses.

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Guerra Indo-paquistanesa de 1971 (Alchetron.com)

A Índia retaliou os ataques ao anoitecer do mesmo dia, usando seus bombardeiros Canberra e caças-bombardeiros Hawker Hunter de origem inglesa e o caça-bombardeiro russo recém-incorporado Sukhoi Su-7, escoltados pelos caças Mikoyan MiG-21. Durante a noite e a madrugada do dia seguinte, os indianos efetuaram 23 surtidas e conseguiram inflingir danos aos aeródromos paquistaneses. As ações aéreas desse dia, com resultados divergentes de ambos os lados, deram início às hostilidades da Guerra Indo-Paquistanesa de 1971.

No mar a guerra teve início na noite de 04 e 05 de dezembro quando forças navais indianas atacaram o porto paquistanês de Karachi. Modernas torpedeiras indianas classe Osa, de origem russa, afundaram o navio paquistanês PNS Khaibar e danificaram outros dois, com um total de 720 marinheiros mortos. A retaliação paquistanesa veio no dia 9 de dezembro, com o submarino PNS Hangor afundando a fragata indiana INS Khukri, com a morte de 194 marinheiros. Essa foi a primeira vitória de um submarino desde a II Guerra Mundial.

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Destróier paquistanês PNS Khaibar (wrecksite.eu)

Quanto aos movimentos em terra, o Exército Indiano efetuou um rápido avanço pelo território bengali, apoiado pelos guerrilheiros do Mukti Bahini (que futuramente seriam a base do novo Exército de Bangladesh), com a captura de mais de 15.000 km² de área do Paquistão Oriental. A fraca guarnição paquistanesa não foi páreo para a grande ofensiva indiana, e a capital do lado oriental, Dacca, acabou caindo em mãos indianas no dia 16 de dezembro. No mesmo dia da queda de Dacca, o Exército do Paquistão Oriental se rendeu, com o cessar-fogo sendo aplicado imediatamente, encerrando as operações. Foi uma das guerras mais rápidas da História, com a duração de apenas 13 dias.

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Fragata INS Khukri (Wikipedia)

O rápido e fulminante avanço indiano foi comparado a uma verdadeira “Blitzkrieg” (a guerra-relâmpago alemã no início da II Guerra Mundial). A fraca resistência do Paquistão Oriental teve como um dois principais motivos o estabelecimento da superioridade aérea indiana, impossibilitando que os melhores caças paquistaneses (Mirage III e Lockheed F-104 Starfighter) de acessar a região, por terem como bases o lado ocidental e precisarem cruzar o norte da Índia para chegar ao lado oriental, missão praticamente impossível. Além disso as fracas forças paquistanesas no Paquistão Oriental e as operações de guerrilha do Mukti Bahini minaram as forças e o moral dos paquistaneses no lado oriental.

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PNS Hangor (Global Village Space)

Mesmo com o conflito tendo pouca duração, o Paquistão teve mais de 32.000 baixas, sendo 8.000 mortos e 24.000 feridos, além de mais de 100 mil homens capturados (boa parte da guarnição do Paquistão Oriental, logo repatriados), perdeu entre 42 a 94 aeronaves (há divergências entre as fontes oficiais dos dois países) e perdeu centenas de tanques, blindados e outros tipos de veículos. Teve também 13 navios de superfície afundados ou severamente danificados (entre eles dois destróieres) e um submarino avariado.

Já as perdas indianas foram estimadas em cerca de 3.000 mortos e 12.000 feridos, além da perda de 45 a 130 aeronaves (também com divergências entre as fontes oficiais dos dois países) e o afundamento de uma fragata. As perdas de tanques e outros veículos blindados foram bem menores que as dos paquistaneses. Ambos os países tiveram sérios danos na infraestrutura da região, pois diversas estradas, pontes, portos e aeroportos foram destruídos ou seriamente danificados. A fulminante vitória indiana e o posterior surgimento de Bangladesh, com total apoio indiano, foi uma pesada derrota para o Paquistão, que passou anos para se recuperar das pesadas perdas.


Continua na Parte IV


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ÍNDIA ATACA POSIÇÕES NO PAQUISTÃO: ANÁLISE DOS ANTECEDENTES -VÍDEO 496


CONFLITO ÍNDIA/PAQUISTÃO: PAINEL DAS OPERAÇÕES MILITARES -VÍDEO 497


Live: conflito Índia/Paquistão e assuntos militares da semana-VÍDEO 499


COMBATES AÉREOS NA CACHEMIRA: ANÁLISE DE UM ARTICULISTA AERONÁUTICO-VÍDEO 500


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