Guerra no subcontinente: a história dos conflitos entre Índia e Paquistão (Parte II)

Por Luiz Reis


Na segunda parte deste artigo, Professor Luiz Reis dá continuidade à história do conflito entre as nações. Leia (ou re-leia) a primeira parte desta história.


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Caxemira (Kashmir), a região em disputa


Após o cessar-fogo de 1948, a tensão entre a Índia e o Paquistão diminuiu. Uma das medidas propostas para a implantação do acordo de paz definitivo foi a realização de um plebiscito (consulta popular) entre os habitantes da Caxemira para se definir o futuro da região, mas o Paquistão não retirou totalmente suas forças, o que violava uma das condições para a realização do plebiscito. Posteriormente a Índia abandonou os esforços para o cumprimento da votação e a ideia foi definitivamente abandonada.

Durante a década de 1950, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou uma revisão da Resolução 47, com quatro novas medidas, inclusive a retirada sincronizada de ambas as tropas (já que a Índia também voltou a ocupar militarmente a região) e a apresentação de 11 propostas diferentes para a desmilitarização da área, cada uma das quais aceita pelo Paquistão, mas rejeitada pelo governo da Índia. Após tais negativas indianas, a situação tornou-se tensa, e ambos os países passaram a se preparar para um iminente conflito.

A POLARIZAÇÃO POLÍTICA E A CORRIDA ARMAMENTISTA

Durante os anos 50, ambos os países acabaram entrando na esfera política das superpotências mundiais, Estados Unidos e União Soviética, entrando no conflito que estava em vigor entre esses dois países, a Guerra Fria. O Paquistão se alinhou com os Estados Unidos e a Índia com a União Soviética. Ambos receberam o que havia de mais moderno (e disponível) do arsenal das superpotências.


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F-86 Sabre da Força Aérea Paquistanesa (EagleEyes, Defense.pk)


Devido a esses acordos, o Paquistão logo entrou na era do jato, recebendo caças Republic F-84 Thunderjet, North American F-86 Sabre e Lockheed F-94 Starfire, além do bombardeiro a jato Martin B-57 Canberra (derivado do English Electric Canberra inglês) diretamente dos estoques da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF, em inglês). Também pela influência (e forte pressão) dos ingleses, os paquistaneses adquiriram aeronaves de caça Supermarine Attacker. Posteriormente (devido aos rumores da compra do MiG-21 pela Índia) os paquistaneses receberam o Lockheed F-104 Starfighter, capaz de Mach 2. O exército paquistanês recebeu tanques M47 e M48 Patton, vários veículos modernos e a marinha paquistanesa recebeu modernos navios de patrulha e alguns outros navios usados da época da II Guerra.


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INS Vikrant, circa 1984 (Foto: Arun Prakash, Wikipedia)


A Índia não ficou atrás, recebendo inicialmente aeronaves de origem inglesa e francesa, inicialmente os caças de Havilland Vampire e o Dassault Ouragan (chamados Toofani pelos indianos), posteriormente adquirindo equipamento mais moderno como os caças Hawker Hurricane e Folland Gnat, ambos ingleses, o bombardeiro inglês English Eletric Canberra, e também adquirindo os caças soviéticos Mikoyan-Gurevich MiG-21 (que recebeu com transferência de tecnologia e licenciamento para produção local). O exército indiano modernizou seus M4 Sherman com canhões rápidos de 75mm, de origem francesa, também adquirindo o tanque inglês Centurion Mk.7 e o francês AMX-13, além de unidades do tanque leve soviético PT-76. A marinha indiana recebeu diversos navios de origem inglesa excedentes da II Guerra, incluindo um porta-aviões, o INS Vikrant (ex-HMS Hercules, mas vendido incompleto para a Índia).

A GUERRA SINO-INDIANA DE 1962

As tensões entre chineses e indianos na região da Caxemira iniciaram-se após a independência da Índia, mas se intensificaram-se no final da década de 1950, mais precisamente em 1959, quando começaram a ocorrer os primeiros choques fronteiriços entre os dois países, com o avanço das forças indianas com o objetivo de tomar os postos de fronteira chineses. Durante os próximos anos, ambos os países trocaram tiros quando suas patrulhas se aproximavam demais dos postos adversários.


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Soldados hindus arrastam a artilharia por terrenos rochosos (Imagem: The Indian Quarterly)


Em 1962, a situação se deteriorou e a Índia e a China se enfrentaram numa guerra aberta em território reivindicado por ambos. Foi um conflito intenso, sendo lutado em território montanhoso e de grande altitude (algumas batalhas foram travadas a quase 5 mil metros de altitude). Após cerca de um mês de combates (20/10 a 21/11/1962), a China obteve uma rápida vitória no conflito, conquistando todos os territórios litigiosos e decretando um cessar-fogo unilateral, resultando na administração chinesa da região denominada Aksai Chin, que continua até os dias de hoje.

A GUERRA INDO-PAQUISTANESA DE 1965

Após a derrota na guerra contra a China, os indianos iniciaram um programa de treinamento e de formação visando obter maior preparação contra uma futura guerra. O Paquistão, sabendo disso e julgando que os indianos estavam enfraquecidos com a derrota contra os chineses, também intensificou seus preparativos. A qualquer momento poderia eclodir um conflito de grande intensidade entre ambos, que buscavam uma rápida solução militar para a questão da Caxemira.


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Soldados hindus no Passo Haji Pir (Adityaaryaarchive.com)


Inicialmente os paquistaneses lançaram a “Operação Gibraltar” em agosto de 1965, infiltrando cerca de 30 mil soldados em roupas civis na região da Caxemira controlada pelos indianos, com o objetivo de iniciar uma rebelião dos habitantes da região contra o domínio indiano. Essa operação resultou em fracasso, com os indianos descobrindo os paquistaneses na região. Os indianos reagiram e repeliram as forças invasoras, além de capturar três postos de fronteira paquistaneses e penetrar no território da Caxemira controlada pelo Paquistão, chegando a estar a oito quilômetros adentro, numa região chamada de Passo do Haji Pir.

No dia 1º de setembro de 1965 o Paquistão lançou a “Operação Grand Slam”, com o objetivo de retomar o território conquistado e cortar as linhas de suprimento indianas. Foi uma larga operação paquistanesa, com pesado apoio de artilharia e cobertura aérea promovida pela Força Aérea Paquistanesa (PAF, em inglês), que atacou bases indianas. Também foi uma operação com grande movimentação de tanques paquistaneses, que rapidamente ultrapassaram a Linha de Controle (LoC, Line of Control, em inglês), a linha do cessar-fogo de 1948. Esses tanques paquistaneses foram repelidos por tanques indianos, gerando as primeiras batalhas entre tanques após a II Guerra Mundial.


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Tanques e infantaria do Paquistão avançando (Imagem: ISPR)


A Operação Grand Slam acabou não tendo sucesso, com o Exército Paquistanês não atingido seus objetivos, pois os indianos repeliram com grande bravura os pesados ataques inimigos. O contra-ataque indiano foi mortal e os paquistaneses perderam a região de Kargil e recuaram ainda mais, com os indianos praticamente ocupando toda a Caxemira paquistanesa. No dia 06 de setembro tropas indianas chegaram a cruzar a fronteira ocidental e entrar na cidade de Lahore, no Punjab paquistanês.

Pesados ataques dos Sabres paquistaneses fizeram com que os indianos recuassem, após pesadas perdas no dia 08 de setembro, da região recém-conquistada. Para proteger as tropas indianas, a Força Aérea Indiana (IAF, Indian Air Force em inglês) enviou caças (Hunters e Gnats) para enfrentar os paquistaneses, ocorrendo combates aéreos, majoritariamente com vitórias dos Sabres, muito superiores. A resposta indiana foi a estreia em combate do MiG-21, de forma limitada, pois os pilotos indianos ainda estavam em formação, fazendo com que os paquistaneses se retirassem, mas a PAF resolveu utilizar os seus F-104 com o objetivo de retomar a superioridade aérea. O resultado foram os primeiros combates de aeronaves Mach 2 da história. Mesmo assim os indianos mantiveram a supremacia aérea na região na maior parte do conflito.


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Soldados hindus e paquistaneses cumprimentam-se após o cessar-fogo da guerra de 1965 (Imagem: India Times / BCCL)


No dia 09 de setembro a 1ª Divisão Blindada indiana, numa ofensiva para ocupar a cidade paquistanesa de Sialkot, conseguiu derrotar a 6ª Divisão Blindada paquistanesa na Batalha de Chawindah, fazendo com que a mesma recuasse após a perda de mais de 100 tanques. Os paquistaneses lançaram no mesmo dia a “Operação Windup”, com um grande ataque coordenado entre o exército e a força aérea e conseguiram, com a poderosa 1ª Divisão Blindada, se aproximar da capital do Punjab indiano, Amritsar, e a estratégica ponte do Rio Beas para Jalandhar, com essa conquista podendo encurralar os indianos.

No dia 10 de setembro ocorreu a Batalha de Asal Uttar, na qual a 1ª Divisão Blindada paquistanesa foi surpreendida pela 1ª Divisão Blindada indiana e foi praticamente aniquilada, com a perda de 97 modernos tanques Patton, enquanto os indianos perderam 32 tanques. Após mais essa derrota, os paquistaneses recuaram e passaram a defender o território das incursões indianas. O conflito então entrou num impasse, resolvido três semanas depois com cessar-fogo imposto pela ONU. Com o cessar-fogo, os indianos, que se consideram vitoriosos, recuaram e voltaram para suas fronteiras de antes do conflito.


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Oficial paquistanês chega após o cessar-fogo para recolher os corpos de paquistaneses mortos e feridos durante a guerra, na fronteira ocidental em 1965 (India Times/BCCL)


A guerra teve um total de cerca de três mil baixas indianas, a perda de 190 tanques e 75 aeronaves indianas. Já os paquistaneses perderam 3.800 homens, cerca de 300 tanques e 20 aeronaves (fontes oficiais).


Continua na Parte III


Dica de Livro:


Assista aos vídeos sobre os conflitos indo-paquistaneses do início de 2019 do nosso parceiro, o Canal Arte da Guerra, do Comandante Robinson Farinazzo:


ÍNDIA ATACA POSIÇÕES NO PAQUISTÃO: ANÁLISE DOS ANTECEDENTES -VÍDEO 496


CONFLITO ÍNDIA/PAQUISTÃO: PAINEL DAS OPERAÇÕES MILITARES -VÍDEO 497


Live: conflito Índia/Paquistão e assuntos militares da semana-VÍDEO 499


COMBATES AÉREOS NA CACHEMIRA: ANÁLISE DE UM ARTICULISTA AERONÁUTICO-VÍDEO 500


 

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  6 comments for “Guerra no subcontinente: a história dos conflitos entre Índia e Paquistão (Parte II)

  1. Leonardo
    12/03/2019 às 19:05

    Ansioso pela parte 3. Na sua opinião, os 3 países respeitariam um referendo feito na Caxemira, pela decisão de a qual país eles querem/acreditam “pertencer”?

    Curtido por 2 pessoas

    • Luiz Reis
      12/03/2019 às 22:03

      Provavelmente não mais. Um abraço e obrigado!

      Curtido por 1 pessoa

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