Tensões nos Andes: a Guerra de Cenepa

Por Luiz Reis

A Guerra de Cenepa (ou Alto Cenepa) foi um breve conflito armado entre as forças armadas do Equador e do Peru, ocorrido entre os dias 26 de janeiro e 28 de fevereiro de 1995, numa região disputada entre os dois países, na Cordilheira do Condor, sobre a bacia do Rio Cenepa. Tal conflito, não declarado oficialmente nem pelo Equador nem pelo Peru, teve origem em antigas disputas fronteiriças, com raízes ainda durante a dominação espanhola, e os eventos de 1995 podem ser considerados uma continuação de uma situação mal resolvida entre as duas nações.

Origens: breve história da disputa territorial Equador-Peru

Uma das disputas territoriais mais antigas da História, teve origem com a intepretação feita por cada novo país da América Espanhola das “Real Cedulas” do Império Colonial Espanhol, que determinava o tamanho de cada Vice-Reino, Capitania ou Território. As fronteiras dos novos países após sua independência da Espanha seriam determinadas através das fronteiras coloniais da América Espanhola em 1810.

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Mapa da “Gran Colombia”

Com isso as fronteiras dos futuros Equador, Colômbia e Venezuela, que foram formadas a partir do desmembramento do antigo Vice-Reino da Nova Granada do Império Espanhol, que inicialmente formou a República da Grande Colômbia (“Gran Colombia”), independente em 1819, seriam delimitadas com o Peru, que era o antigo Vice-Reino do Peru, que havia se tornado independente em 1820.

Em 1830 a República do Equador proclamou sua separação da Grande Colômbia, e a mesma solicitou uma grande área que englobava a Região Amazônica, que segundo os equatorianos, seria a região sudeste do antigo Vice-Reino da Nova Granada, no qual o Peru contestou, alegando que seria a região nordeste do antigo Vice-Reino do Peru. A disputa chegou a um impasse com o bloqueio do porto equatoriano de Guayaquil pelos peruanos, obrigando os países a entrarem num acordo provisório em 1860 (Tratado de Mapasingue).

A disputa seguiu pelos anos finais do século XIX e o início do século XX. Um breve e sangrento conflito entre a Colômbia e o Peru ocorreu entre 1932 e 1933, e os acordos que deram fim a esse conflito, segundo os equatorianos, foram prejudiciais a eles, pois englobou territórios que eram reivindicados pelo país e agora eram considerados territórios colombianos (a região do Rio Putumayo tornou-se a fronteira entre o Peru e a Colômbia).

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Parte de infográfico sobre a Guerra de 1941 pelo canal History

Tais acordos aumentaram significativamente as tensões entre o Equador e o Peru nos próximos anos, ocasionando, em 1941, o primeiro conflito armado entre os dois países, a “Guerra Equador-Peru”, ou “Guerra de 1941”, que ocorreu entre os dias 05 e 31 de julho de 1941. Durante a guerra o Peru ocupou o sul do território equatoriano e forçou o Equador a negociar um acordo de paz que foi altamente vantajoso para os peruanos, o “Protocolo do Rio de Janeiro”, que foi assinado em 29 de janeiro de 1942, onde o Equador renunciou a vários territórios que eram reivindicados desde o século XIX.

Durante a década de 1960, o governo equatoriano alegou que o Protocolo era inválido porque o país foi coagido a assiná-lo, devido a presença de tropas peruanas em seu território e a derrota na Guerra de 1941. O então presidente do país, José Maria Velasco, conseguiu que o Congresso Equatoriano votasse a anulação do Protocolo, provocando protestos por parte dos peruanos, com a situação voltando a se tornar tensa na região fronteiriça.

Em 1981 as tensões chegaram ao ápice novamente com o início do segundo conflito entre equatorianos e peruanos, a “Guerra de Paquisha” ou “Incidente de Paquisha”, entre 28 de janeiro e 05 de fevereiro, quando três postos de fronteira do Exército Equatoriano

que estavam na área disputada pelos dois países, foram atacados e tomados pelos peruanos. Um posterior acordo de cessar-fogo foi assinado, mas com termos que desagradaram os equatorianos, assim como o Protocolo de 1942.

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Manchete do jornal equatoriano “El Universo” de 29/01/1981 destacando o conflito

Após esses dois breves conflitos, equatorianos e peruanos passaram a trocar tiros ocasionalmente na região de fronteira, principalmente na região amazônica, na Cordilheira do Condor e no vale do Rio Cenepa.

Preparação para a guerra

Durante os últimos anos, principalmente após o conflito de 1941 e o aumento das tensões decorrentes na anulação equatoriana do Protocolo, ambos os países passaram a adquirir equipamentos bélicos para uma possível guerra de maiores proporções.

O Peru, que também nutria tensões com o Chile também por disputas fronteiriças no sul de seu território, desde a década de 1960 passou a adquirir equipamento moderno. Para o exército adquiriu tanques (MBTs, Main Battle Tanks) de origem soviética T-54/T-55, o francês AMX-13, os veículos blindados (APCs, Armored Personnel Carrier) M-113 de origem norte-americana, os russos BDRM-2 e os italianos Fiat 6614. Também adquiriram mísseis portáteis antiaéreos (MANPADS, Man-Portable Air Defense System) 9K38 Igla, além de outros armamentos modernos.

Já a Força Aérea Peruana (FAP) adquiriu primeiramente aeronaves Dassault Mirage 5P e depois o Mirage 2000P, os russos Sukhoi Su-22, os norte- americanos Cessna A-37B Dragonfly, bombardeiros ingleses English Electric Canberra, helicópteros russos Mil Mi-8 e Mi-17 e Bell 212 dos Estados Unidos, dentre outros.

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Sukhoi Su-22 da FAP (Fuerza Aérea del Perú) – Foto: Eduardo Cardenas

O Equador não ficou atrás e também adquiriu equipamentos modernos, destacando-se os MBTs russos T-55 e o francês AMX-13, os veículos blindados brasileiros Engesa EE-3 Jararaca e EE-9 Cascavel, APCs russos BTR-60, lançadores múltiplos de foguetes russos BM-21, os MANPADS Igla russo e Blowpipe inglês, além de helicópteros AS-532 Super Puma/Cougar para o Exército Equatoriano. Para Força Aérea Equatoriana (FAE), foram adquiridas aeronaves de ataque SEPECAT Jaguar, caças Dassault F-1JE, IAI Kfir C.2, Cessna A-37B Dragonfly e bombardeiros English Electric Canberra.

 

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EE-9 Cascavel do Ejército Ecuatoriano

Durante o início dos anos 1990 a corrida armamentista continuou e ao longo do tempo tanto peruanos quanto equatorianos treinaram exaustivamente tropas para operações em selva. Alguns soldados, de ambos os países, foram treinados no CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva) do Exército Brasileiro através de acordos de cooperação mútua. Já no final de dezembro de 1994, com o aumento das tensões, ambos aumentaram sua presença na região do Vale do Cenepa, um dos locais de litígio, já se preparando para o iminente conflito.

O início do conflito e primeiras operações

Com a chegada do novo ano a situação piora de vez e o Exército Peruano inicia patrulhas mais agressivas, mas na noite do dia 09 de janeiro de 1995 tropas equatorianas encontram e capturam quatro militares peruanos que supostamente estavam em seu território e nas cercanias de sua base (Base Sul). Dois dias depois, em 11 de janeiro, tropas equatorianas localizam e abrem fogo contra outra patrulha peruana num ponto mais ao norte e altamente estratégico (Base “Y”), mas sem vítimas.

A partir da terceira semana de janeiro há um aumento no envio de tropas e suprimentos nos dois países. Começam a surgir relatos de ambos os lados reforçando suas defesas nos postos fronteiriços e a construção de diversos heliportos improvisados. A partir do dia 21 helicópteros peruanos iniciam voos de reconhecimento e de inserção de tropas especiais em posições estratégicas da região. No dia seguinte, 22, os equatorianos detectam

um pequeno posto peruano com heliporto situado ao norte e atrás dos seus próprios postos de fronteira.

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Posições no início das hostilidades e demarcações dos acordos de 1942 e 1998

O presidente do Equador, Sixto Durán-Ballén, é informado da situação pelo seu Conselho de Segurança Nacional e o comandante do Exército Equatoriano de que a situação é crítica e ordena as tropas a agirem. Da mesma forma o presidente do Peru, Alberto Fujimori, é informado da situação e autoriza uma operação do Exército Peruano na região do Vale do Cenepa contra a “agressão” equatoriana. A guerra torna-se iminente.

No dia 24 de janeiro os comandantes de campo dos dois exércitos recebem as ordens de agir, e os preparativos para uma guerra aberta se intensificam. Na manhã do dia 26 de janeiro de 1995, forças especiais equatorianas, após três dias de marcha forçada, localizam a atacam ferozmente um pequeno destacamento peruano (Base Norte). Apesar dos avisos de um iminente ataque, as forças peruanas são pegas de surpresa e batem em retirada, se dispersando na selva, e deixando pra trás mortos e feridos, além de armas e suprimentos. A Guerra de Cenepa assim teve início.

A cronologia da guerra

Nos dias e semanas seguintes, os eventos se desenrolam em rápida sucessão, tendo ocorrido aproximadamente da forma aqui relatados em ordem cronológica:

24 de janeiro: O Peru mobiliza tropas para cercar a pequena cidade de Tiwinza, no Equador. A FAE (Fuerza Aérea Ecuatoriana) é colocada em alerta máximo e inicia PACs (Patrulhas Aéreas de Combate) para apoiar as ações do exército e promover superioridade aérea na região.

25 de janeiro: Tropas peruanas chegam a um ponto próximo da Base Sul equatoriana, aos pés da Cordilheira do Condor, provocando reação dos equatorianos, que atacam ferozmente os peruanos, iniciando de fato o conflito.

26 de janeiro: Soldados peruanos que ocupavam um pequeno posto com heliporto em Quebrada, por trás de pequenos postos equatorianos construídos em 1994, supostamente do lado peruano, são atacados por forças especiais equatorianas. Derrotados, fogem para a mata. Em seguida os equatorianos transformam esse posto na “Base Norte” e iniciam operações de busca e destruição contra tropas peruanas.

27 de janeiro: Nos dois países é decretada mobilização geral, com convocação de milhares de reservistas. Unidades blindadas dos dois países são enviadas para a fronteira próximo ao Oceano Pacífico, para o caso de guerra total. Um total de 140.000 homens dos dois países são mobilizados durante a guerra.

Quadro-forcas

Principais forças peruanas e equatorianas em 1995* (Gal. José Gallardo, “La Defensa Militar del Alto Cenepa”, Tiwintza, 1995)

*há divergências nos números conforme a fonte pesquisada.

28 de janeiro: Logo pela manhã cedo os peruanos lançam a primeira grande operação terrestre contra as posições equatorianas ao longo do Vale do Cenepa, com grande apoio de helicópteros, tendo um Bell 212 da FAP (Fuerza Aérea del Perú) danificado. Na parte da tarde, alguns Su-22 da FAP tentam um ataque as posições equatorianas, mas retornam com a informação de haverem caças equatorianos na região.

29 de janeiro: Numa operação que continuará nos dias seguintes, forças terrestres peruanas lançam múltiplos e pesados ataques contra as posições equatorianas, apoiados por helicópteros da FAP e da Aviação do Exército Peruano (AEP). Violentos ataques são registrados em Tiwinza, Base Sul, Coangos e Cueva de los Tayos. Durante esses ataques, um Mi-8 da AEP foi abatido por um MANPADS equatoriano, sendo essa a primeira perda de uma aeronave na guerra. No final do dia os peruanos alegaram a tomada de três postos equatorianos, sendo que os mesmos não confirmaram tais conquistas.

31 de janeiro: Após um período de 24 horas de calmaria e um não-oficial cessar fogo (para recolhimento dos feridos na mata), a batalha recomeça de forma brutal nos postos de Tiwinza, Coangos e Cueva de los Tayos. Tanto Equador quanto Peru rejeitam apelos internacionais para encerrar imediatamente as hostilidades.

1º de fevereiro: A batalha continua, com a infantaria peruana sendo apoiada por artilharia pesada e apoio aéreo, com os A-37 da FAP atacando continuamente posições equatorianas. A base equatoriana de “Cóndor Mirador”, no topo da cordilheira, cai em mãos peruanas. Um pelotão peruano que tentava atacar Cueva de los Tayos entra num campo minado e sofre pesadas baixas.

02 de fevereiro: A FAP ainda continua martelando Cueva de los Tayos e a Base Sul com sucessivos ataques dos A-37 e também dos Embraer EMB-312 Tucano (AT-27), sempre se retirando quando os interceptadores da FAE chegam de Guayaquil no extremo norte do Equador, ao campo de batalha.

03 de fevereiro: a FAE envia aeronaves BAC 167 Strikemaster e A-37B para atacar posições peruanas pela primeira vez.

04 de fevereiro: Tucanos da FAP bombardeiam posições equatorianas durante uma surtida noturna, valendo-se da escuridão da noite e do silêncio de seus motores.

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Área de fronteira em disputa

06 de fevereiro: A FAP utiliza pela primeira vez o bombardeiro Canberra para atacar posições equatorianas. Um dos Canberra foi perdido, provavelmente chocando-se contra uma montanha devido as péssimas condições climáticas na hora do ataque.

07 de fevereiro: O Equador reforça as defesas antiaéreas na região para combater os ataques peruanos com a adição de mais MANPADS e artilharia antiaérea (AAA). Em virtude disso um Mi-25 (versão de exportação do famoso Mil Mi-24) foi abatido ao ser atingido provavelmente por um Igla equatoriano. Os A-37 da FAE, escoltados por caças Kfir, continuam a atacar posições peruanas. Um dos A-37 foi atingido por AAA peruana (ZSU-23- 4 Shilka?), mas consegue retornar com segurança à base.

09 de fevereiro: A atividade aérea se intensifica, com cerca de 16 surtidas aéreas da FAP na região, utilizando o Su-22 em missão de ataque a média altitude, para evitar a AAA e os SAMs equatorianos. Os Canberra da FAP realizam pesados bombardeiros noturnos na região.

10 de fevereiro: A frenética atividade aérea na região continua no campo de batalha. Pela manhã a FAP envia uma esquadrilha de A-37 e outra de Su-22 que promovem pesados ataques as forças equatorianas. A FAE reage, com caças equatorianos que estavam em PAC (dois F-1JE e dois Kfir C.2) são enviados para interceptar os atacantes peruanos. Nos momentos seguintes um A-37 peruano é abatido por um dos Kfir e dois S-22 são abatidos pelos F-1JE equatorianos. O Peru não confirma a perda dos Su-22 pelos Mirages, e sim um pelo pesado fogo AAA equatoriano presente na região e outro por problemas no motor.

11 de fevereiro: Pela manhã forças especiais peruanas continuam a atacar posições peruanas, mas a força dos ataques começa a diminuir, tanto pelas más condições climáticas da região quanto provavelmente pela falta de suprimentos. Mesmo assim a atividade aérea continua pesada na região. Um A-37 equatoriano foi atingido por um Igla peruano durante um ataque a baixa altura contra posições peruanas. Apesar de danificado, o Dragonfly equatoriano consegue voltar para a base em segurança.

12 de fevereiro: As operações aéreas continuam. Os peruanos reivindicam a destruição, usando MANPADS, de um A-37B e de um Kfir, mas essa afirmação é negada pelos equatorianos.

13 de fevereiro: Forças peruanas se reorganizam e lançam um poderoso ataque contra Coangos e Tiwinza, com pesado suporte aéreo. Um Mi-8 peruano foi perdido por AAA equatoriano. O presidente peruano Alberto Fujimori ao anoitecer anuncia que forças peruanas conquistaram Tiwinza, mas foram desmentidos pelos equatorianos, inclusive mostrando que a posição do posto mostrado pelo presidente via GPS era falsa.

14 a 16 de fevereiro: Pesados combates continuam na zona de conflito, mas com pouca atividade aérea devido ao mau tempo da região.

17 de fevereiro: Por iniciativa dos quatro mediadores do Protocolo do Rio de Janeiro (Estados Unidos, Brasil, Chile e Argentina) e com a presença de autoridades equatorianas e peruanas, é assinada uma declaração de paz no Brasil (Declaração de Paz do Itamaraty), que confirma o cessar-fogo, instala uma missão de paz para a região, a MOMEP (Military Observer Mission Ecuador-Peru – Missão de Observação Militar Equador-Peru), que vai fiscalizar a separação das forças e iniciar o processo de delimitação definitiva da fronteira na região.

21 de fevereiro: Os primeiros observadores da MOMEP chegam à zona de conflito, mas é constatado que a luta ainda continua na região, impedindo os observadores de fazerem algo a respeito. O Equador denuncia que helicópteros peruanos estão violando o cessar-fogo, sobrevoando e atirando nas posições equatorianas.

22 de fevereiro: No dia que os equatorianos se referem como a “Quarta-feira Negra”, forças peruanas lançam um pesado ataque contra Tiwinza, surpreendendo os equatorianos, que sofreram pesadas baixas, com 14 mortos e dezenas de feridos, as piores da guerra. Em retaliação os equatorianos lançaram um pesado ataque ao anoitecer, que foi suportado e repelido pelos peruanos até o dia seguinte, também com grande número de baixas dos dois lados.

28 de fevereiro: Após mais alguns dias de esporádicas e fracas escaramuças, Equador e Peru assinaram a Declaração de Montevidéu, reiterando e ratificando um imediato cessar-fogo entre os dois países. Apesar de alguns tiroteios ainda continuarem por alguns meses, a Guerra de Cenepa está oficialmente encerrada, sem ter havido um vencedor.

Consequências do conflito

Após o fim das hostilidades, os observadores da MOMEP trataram de organizar a separação efetiva das forças adversárias e a elaboração de uma zona desmilitarizada, sendo oficialmente criada em 5 de maio de 1995, com a saída dos últimos militares da região.

As negociações para um permanente e efetivo acordo de paz continuaram entre os dois países e no dia 26 de outubro de 1998, os presidentes do Equador, Jamil Mahuad, e do Peru, Alberto Fujimori, com a tutela dos presidentes do Brasil, Chile e Argentina e um

representante dos Estados Unidos, assinaram o definitivo acordo de paz, que delimita oficialmente a região.

Segundo o acordo de paz, a fronteira definitiva segue pela Cordilheira do Condor e respeita uma proposta aceitável pelos dois países ainda na década de 1940. Também é cedida a propriedade ao Equador, e não a soberania, de uma área aproximadamente de um quilômetro quadrado dentro do território peruano, onde estão sepultados os 14 equatorianos mortos nas ações do dia 22 de fevereiro.

Baixas e perdas materiais

Há muita controvérsia sobre as baixas da Guerra de Cenepa. Segundo fontes oficiais equatorianas, foram 34 mortos e 70 feridos, mas algumas fontes falam entre 150 e 160 mortos e mais de 300 feridos. Do lado peruano, oficialmente foram 60 mortos e cerca de 400 feridos. Muitos veteranos, assim como em outras guerras, sofrem de estresse pós-traumático e depressão, não recebendo a ajuda necessária para superar tais problemas, sendo os casos de suicídio entre os ex-combatentes algo recorrente.

Já entre as perdas materiais, também há divergências. Oficialmente, os equatorianos perderam apenas um A-37B e um AT-33A. Já os peruanos perderam três helicópteros (dois Mi-8 e um Mi-25) e quatro aeronaves (dois Su-22, um A-37B e um Canberra), mas algumas fontes não oficiais apontam que os equatorianos perderam dois Kfir C.2, mais dois A-37B e um helicóptero não identificado.

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Perdas materiais* (Gal. José Gallardo, “La Defensa Militar del Alto Cenepa”, Tiwintza, 1995)

*há divergências nos números conforme a fonte pesquisada.

Acusações de vendas ilegais de armamento

Após a guerra, jornais peruanos noticiaram que o Chile havia ilegalmente vendido armamento para o Equador durante o conflito. Os chilenos alegaram um antigo acordo militar assinado em 1977 e admitiram a venda apenas de munições leves. Houve uma investigação e o então presidente Eduardo Frei acabou inocentado das acusações.

A Argentina também admitiu a venda ilegal de armas para vários países nos anos 1990, entre eles o Equador, que recebeu 6,5 toneladas de fuzis, foguetes antitanque e munições diversas. O então presidente Carlos Menem, que autorizou a venda, foi posteriormente sentenciado a sete anos de prisão.

A região hoje

A MOMEP encerrou em 1999, e aparentemente a paz voltou à região. A guerra, mesmo tendo sido de curta duração, devastou a economia dos dois países, que por anos viveram grandes crises políticas, institucionais e econômicas, nas quais suas forças armadas também sofreram os reflexos.

Apesar de não ter havido um vencedor desse conflito, percebemos que o Peru perdeu muitos equipamentos, principalmente aéreos, portanto ao longo dos anos, a FAP se modernizou e se atualizou. Chegaram os caças Mikoyan Mig-29 Fulcrum e os Sukhoi Su-25 Frogfoot, os Mirage 2000P (que não participaram diretamente da guerra) e os A-37B foram modernizados e os Mirage 5P, os Su-22 e os Canberra foram aposentados.

Já os equatorianos enfrentaram forte crise econômica e suas forças armadas foram vítimas dela, hoje não sendo nem sombra do que foram há 24 anos atrás. Os Mirage F-1, os Kfir e os Jaguar foram aposentados e/ou estocados e sua outrora poderosa força de caças se resume hoje a uns poucos Atlas Cheetah (uma versão do Mirage 5) recauchutados da África do Sul.

Neste momento (fevereiro de 2019) as tensões se voltam mais ao norte, com a crise da Venezuela, mas como vimos nesse artigo, a guerra nunca é a melhor das soluções, pois

causa morte, destruição e acima de tudo, é algo desnecessário para uma região tão carente de recursos e atrasada como a América do Sul.

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  6 comments for “Tensões nos Andes: a Guerra de Cenepa

  1. Rodrigo Motta
    27/02/2019 às 20:41

    Excelente análise do conflito! Como sempre o site elaborando ótimas matérias! Parabéns!

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    • Luiz Reis
      27/02/2019 às 21:12

      Muito obrigado!

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    • 28/02/2019 às 08:35

      Obrigado Rodrigo, procuramos trazer sempre conteúdo relevante para os assinantes. Grato por nos acompanhar!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Natan
    28/02/2019 às 22:50

    Excelente artigo e cheio de detalhes, excelente

    Curtido por 1 pessoa

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