Os Golpes de 1992 na Venezuela: Origens do Bolivarianismo

Por Luiz Reis 

A Venezuela sempre foi uma nação orgulhosa de ser um verdadeiro oásis democrático em meio aos golpes e quarteladas ocorridas em diversos países da América Latina. Durante as conturbadas décadas de 1960 e 1970 o país passou por um período de estabilidade econômica e democrática, mesmo que ocorressem casos de tortura, desaparecimentos, execuções sumárias e corrupção. Tal estabilidade foi baseada no comércio exterior, com especial destaque aos recursos oriundos do petróleo, descoberto no país no século XIX, cujas reservas constituem uma das maiores do mundo, levando o país a ser membro da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) a partir de 1960.

Na década de 1980 a Arábia Saudita e outros países exportadores de petróleo aumentaram o nível de produção, fazendo cair vertiginosamente o preço do barril e levando a Venezuela, altamente dependente dos lucros, a entrar em crise. Em relação a isso, o governo de Carlos Andrés Pérez (CAP) pôs em prática medidas de ajustes econômicos propostas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), com o objetivo de restabelecer a estabilidade fiscal e de implementar políticas neoliberais, que geralmente levam a uma redução nos gastos sociais e alteram a política de preços de muitos produtos.

Tais políticas, que foram aplicadas em muitos países latino-americanos, inclusive no Brasil, pioraram a vida da maioria da população venezuelana, principalmente os mais pobres, culminando com violentos protestos na capital da Venezuela, Caracas, dia 27 de fevereiro de 1989, conhecidos como “Caracazo” (ou “Caracaço”) cuja população foi massacrada pelas forças do governo (os números giram entre cerca de 375 mortos, segundo o governo, e mais de 2.000 mortos, segundo fontes não oficiais). Esses violentos protestos foram o ponto de partida para se pensar num movimento maior para se derrubar o governo venezuelano, dessa vez com a participação de setores das Forças Armadas Venezuelanas.

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“El Caracazo”, revolta popular violentamente reprimida pelo governo

Origens ideológicas, Hugo Chávez e o MBR-200 

Muitos futuros conspiradores foram membros do “Partido de La Revolución Venezolana” (Partido da Revolução Venezuelana), fundado na década de 1970, que se utilizou da estratégia de infiltrar seus membros em setores das forças armadas, principalmente na então Força Aérea Venezuelana – FAV (atual Aviação Militar Bolivariana da Venezuela – AMBV), para alcançar o poder.

Em 1982 foi fundado o “Movimento Bolivariano Revolucionario 200” (MBR-200) pelo então capitão de engenharia e paraquedista Hugo Rafael Chávez Frías, de origem humilde, altamente influenciado na juventude e na escola militar por ideais esquerdistas, marxistas e um grande admirador de Simón Bolívar, um dos fundadores da Venezuela. Já a partir desse período Hugo Chávez vivia uma vida dupla, pois servia de forma brilhante no Exército Venezuelano, sendo várias vezes condecorado e promovido por bravura e eficiência no cumprimento do dever, além de militar fervorosamente no MBR-200, apoiando e difundido ideologias de cunho esquerdista nas forças armadas e conseguindo mais e mais simpatizantes para sua causa.

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Carlos Andrés Pérez

Os preparativos para o golpe e seus primeiros desdobramentos

Em 1991, o já tenente-coronel Hugo Chavéz, cada vez mais insatisfeito e preocupado com os rumos da política venezuelana, inicia os preparativos para o golpe. De seu posto de comandante do Batalhão de Paraquedistas, uma unidade de elite das forças armadas, Chavéz e o seu MBR-200 iniciam os contatos para o movimento, estipulando com seus apoiadores o início do golpe para dezembro do mesmo ano. Devido a diversos fatores, entre eles as festas de fim de ano, que levam muitas pessoas às ruas e tal movimento poderia se tornar sangrento, Chávez adia a data e estipula novamente a data de 04 de fevereiro de 1992 como o início do movimento.

Nessa data cinco unidades do MBR-200, sob o comando de Chávez bloqueiam o centro de Caracas e rumam para o Palácio de Miraflores, sede do governo, a Base Aérea de La Carlota, onde se concentram as principais unidades aéreas da FAV, o Ministério da Defesa e o Museu Militar. O principal objetivo dos rebeldes era deter o presidente Carlos Andrés Pérez no Aeroporto de Maiquetía, que retornava de uma viagem ao exterior.

Os primeiros movimentos dos rebeldes tiveram sucesso e todos os objetivos iniciais foram atingidos, entretanto numerosas traições, deserções, erros estratégicos e outros imprevistos levaram Chavéz e seu pequeno grupo de rebeldes (que estimavam ter o apoio de pelo menos 10% das forças armadas) a se entrincheirarem no Museu Militar e terem as comunicações cortadas pelas forças leais ao governo, sem ter como transmitirem ordens a outros rebeldes espalhados pela Venezuela. As fitas pré-gravadas nas quais Chávez incitava a população a se rebelarem contra o governo também não foram transmitidas.

A reação popular e o fim das hostilidades

Mesmo com o bloqueio da liderança rebelde, violentos combates se seguiram em Caracas, com vários mortos dos dois lados e também em cidades como Valencia, Maracaibo e Maracay, com o apoio espontâneo da população pela causa rebelde. As forças do MBR-200 falharam em tomar a cidade, apenas com o pequeno grupo leais de rebeldes entrincheirados no Museu Militar. O presidente Pérez escapou das tentativas de captura e execução e pessoalmente coordenava a reação das tropas leais a ele.

Devido aos sucessivos fracassos dos rebeldes, Hugo Chávez logo desistiu de lutar pelo governo. Ele então iniciou as negociações e obteve permissão para aparecer em rede nacional de televisão para ordenar a todos os destacamentos rebeldes o fim das hostilidades. Quando o fez, Chávez disse na televisão que ele havia falhado apenas “por hora naquele momento”:

“Companheiros, infelizmente, mesmo momento, os objetivos que determinamos para nós mesmos não foram alcançados na capital. Isto é para dizer que nós em Caracas não fomos capazes de tomar o poder. Onde quer que vocês estejam, vocês desempenharam bem seus papéis, mas agora é tempo para repensar; novas possibilidades surgirão novamente e o país será capaz de ter definitivamente um futuro melhor.”

Até então desconhecido do público geral venezuelano, Chávez foi imediatamente catapultado para a atenção nacional, com muitos venezuelanos pobres tendo-o como alguém que se levantou contra a corrupção e a aristocracia. Em seguida Chávez foi preso e enviado a prisão de Yare, no complexo militar de San Carlos.

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Hugo Chávez, preso, fala em rede nacional após o fracassado golpe de 1992

Uma segunda tentativa de golpe 

Após os acontecimentos do dia 04 de fevereiro, a situação da economia venezuelana não melhorou e diversos setores das forças armadas ainda estavam bastante insatisfeitos com os rumos da política local, aliado as denúncias de corrupção do governo de Carlos Andrés Péres, inclusive com denúncias diretamente envolvendo o Presidente da Venezuela.

Em resposta a toda essa crise, no dia 27 de novembro de 1992 inicia-se uma segunda tentativa de golpe de Estado. Tal movimento foi liderando por oficiais da força aérea e da marinha venezuelana, que entraram em contato com Hugo Chávez na prisão, que falou sobre os erros cometidos na tentativa de fevereiro, e deflagraram o movimento.

Os rebeldes chegaram a tomar uma estação de televisão e veicular um vídeo em que Chávez convoca uma rebelião popular contra o governo. Uma batalha sangrenta tem início nas ruas de Caracas entre os rebeldes e as forças governamentais. Diversas aeronaves da Força Aérea Venezuelana foram tomadas pelos rebeldes, destacando os Dassault Mirage 5EV, Rockwell OV-10 Bronco e os Embraer AT-27 Tucano, que foram usados para bombardear posições, quartéis e bases das tropas legalistas, sendo os céus tomados pelos rebeldes.

Entretanto os principais caças da FAV na época, os General Dynamics F-16A estavam nas mãos do governo, e seus sobrevoos a baixa altura em Caracas praticamente afugentaram os rebeldes, com a maioria retornando as bases. As poucas aeronaves rebeldes que resistiram (pelo menos um OV-10 e um AT-27) foram abatidos pelos F-16, sendo tais abates filmados pelas televisões de Caracas, que praticamente cobriam a batalha do topo dos prédios.

As tentativas dos rebeldes de resgatar Chávez da prisão falharam e as forças do governo rapidamente retomaram todas as bases aéreas e quartéis rebeldes. Na madrugada do dia 28 de novembro, cerca de 300 rebeldes embarcaram em dois Lockheed C-130H da FAV e voaram até o Peru, onde ao desembarcar na cidade de Iquitos pediram asilo político. A fracassada tentativa de golpe de novembro levou a um total de 172 mortos, número bem maior do que em de fevereiro, que teve cerca de 60 mortos.

Conseqüencias das tentativas de golpe 

Com a imagem desgastada por causa das tentativas de golpe, aliado a desconfiança da opinião pública pelo fracasso de suas reformas neoliberais, aliado à rejeição contra suas medidas extremas contra os conspiradores, o governo de Carlos Andrés Pérez é bombardeado por uma série de denúncias, inclusive de antigos aliados, contra a endêmica corrupção do governo. A situação se agrava no ano seguinte, culminando no Impeachment de Pérez, no dia 20 de maio de 1993.

Com o impeachment, novas eleições são convocadas, e o novo presidente venezuelano, Rafael Caldera, em um dos seus primeiros atos, perdoa os rebeldes das tentativas de golpes de fevereiro e novembro de 1992. Hugo Chávez é libertado da prisão e abandona a vida militar, passando a se dedicar à política. O agravamento da crise social e o crescente descrédito nas instituições políticas tradicionais o favoreceram.

O MVR, a eleição de Chávez e o início do Bolivarianismo 

Em 1997, Chávez fundou o Movimento V República (MVR) e nas eleições presidenciais de 1998, apoiado por uma grande coligação de esquerda e de centro-esquerda, organizada em torno do MVR (o “Pólo Patriótico”) vence as eleições com 56% dos votos. Ao assumir inicialmente para um mandato de cinco anos, Chávez decreta a elaboração de um plebiscito para a convocação de uma nova Assembleia Constituinte. Em 25 de abril do mesmo ano atendendo ao plebiscito, 70% dos venezuelanos apoiam a realização de uma nova Constituinte.

A nova Constituição, promulgada em 1999, modificou radicalmente a estrutura política venezuelana, inclusive o nome do país, que passou a se chamar República Bolivariana da Venezuela, e deu amplos poderes ao Presidente. Chávez, segundo determinação da Nova Constituição, submeteu-se a uma nova eleição em 2000 e acabou se reelegendo e o Pólo Patriótico praticamente dominando a Assembleia Nacional, com isso inicia-se seu modelo de governo, de cunho esquerdista, chamado de “Chavismo” ou “Bolivarianismo”.

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A Venezuela hoje: Nicolás Maduro e Juan Guaidó reivindicam a presidência

O Bolivarianismo hoje 

Hugo Chávez sofreu uma tentativa de golpe em abril de 2002, chegando inclusive a ser preso, mas o movimento foi rapidamente debelado por forças leais. O Bolivarianismo se fortaleceu ao longo dos anos, com sucessivos referendos e plebiscitos que aumentou os poderes de Chávez, inclusive com reeleições ilimitadas. Aparelhou com diversos simpatizantes e apoiadores as estatais venezuelanas, inclusive a PDVSA, a poderosa estatal do petróleo. Criou milícias que apoiam seu governo e mimou as forças armadas com armamento moderno, em sua maioria de origem russa, como os mísseis antiaéreos Buk S-300, MBTs T- 72B1V e caças Sukhoi Su-30MKV.

Em 2013, aos 58 anos, Hugo Chávez, vítima de um câncer, morre e seu lugar é ocupado por Nicolás Maduro, um ex-sindicalista que havia se tornado o seu braço direito e Vice-Presidente. Maduro continua as políticas de assistencialismo e aparelhamento do Estado venezuelano, mas a crise global e a novamente baixa do preço do petróleo leva a Venezuela mais uma vez a uma crise, que se torna institucional com a fraudulenta reeleição de Maduro, e a crise política que dura até o presente momento, numa bizarra situação em que o país tem dois presidentes, Maduro e Juan Guaidó, o Presidente da Assembleia Nacional (esse sim reconhecido por vários países europeus, os Estados Unidos e até mesmo pelo Brasil de Jair Bolsonaro).

Apesar das significativas melhorias da qualidade de vida do povo venezuelano nos primeiros anos do bolivarianismo, durante o governo de Hugo Chávez, principalmente devido aos gordos subsídios estatais, hoje a fonte secou e o atual Bolivarianismo, comandado pelo “ilegítimo” Nicolás Maduro caminha para o seu fim. Devemos então acompanhar os próximos acontecimentos para saber qual será o futuro e um país que um dia foi um oásis da democracia e da estabilidade.


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  5 comments for “Os Golpes de 1992 na Venezuela: Origens do Bolivarianismo

  1. João Gabriel
    04/03/2019 às 01:43

    “O socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros.”

    Curtido por 1 pessoa

  2. 08/05/2019 às 20:24

    Análise limpa e apartidária dos acontecimentos na vizinha Venezuela. Ainda tem muita água para rolar por debaixo desta ponte, vamos seguir acompanhando e aprendendo.

    Curtido por 1 pessoa

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